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terça-feira, 29 de maio de 2012

Enfermeiro, e agora?


     Estamos notando, recentemente, um aumento expressivo no número de técnicos que entram na faculdade de enfermagem. Acredito que essa seja a realidade em todo o país. Em busca de melhores condições de trabalho, de uma remuneração mais digna e de reconhecimento, eles encaram horas e horas de plantão, intercaladas com os estudos. Valorizo muito essas iniciativas, caracterizadas pela saída da zona de conforto e pela busca constante de novos desafios. Essa é uma decisão difícil e deve ser pensada com muito cuidado.

      Na realidade, a inserção no mercado de trabalho como enfermeiro não é tão simples como parece. Mesmo possuindo um vínculo grande com a instituição, onde trabalham como técnicos, não necessariamente todos são aproveitados como enfermeiros. O principal motivo? Perfil do profissional? Qualificações? Dificuldade para coordenar antigos colegas? Acredito que seja multifatorial. Existem inúmeros enfermeiros atuando no mercado como técnicos de enfermagem por falta de oportunidade.

     Hoje, gostaria de compartilhar um trecho de uma carta que escrevi para uma grande técnica de enfermagem, agora enfermeira da nossa equipe no Centro de Terapia Intensiva, na ocasião da sua formatura. Tenho plena certeza de que ela também será uma excelente enfermeira. Acredito que possa ser útil para todos aqueles que estão vivendo ou viverão essa situação.

     “... gostaria de lhe parabenizar por essa nova etapa que se inicia e aproveitar para falar sobre algumas coisas...
       Continue se aperfeiçoando. As oportunidades são poucas, mas sempre haverá espaço para os bons profissionais.
       Atenção e carinho sempre serão os melhores remédios, independente da doença.
       Nunca se afaste da assistência direta ao paciente. A enfermagem atual está seguindo esse caminho que considero errado. Busque o equilíbrio. Números jamais substituirão os pacientes, mas são necessários.
       Mantenha a humildade. De repente, seus colegas passam a se reportar a você. É difícil delegar funções e cobrar. Aprimore isso sempre. Seja parte da equipe, ensine e sempre aprenda com ela.
       Tenha tempo para sua família.
       Tenha tempo para você. Cuide-se. Para cuidar, precisamos estar bem.
   Continue batalhando e sorrindo, afinal de contas, o bom humor é a principal característica que nos aproxima.

     Finalizando e completando o texto...

       Busque seus sonhos, mas tente balizá-los com a realidade. Planeje o sonho, tenha paciência e perseverança. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ao Final da Residência...


           Hoje estava mexendo nas memórias digitais do meu computador (que são idênticas a memória convencional e até merecem uma postagem depois) e encontrei um discurso que fiz em 2002, ao final da minha especialização de Clínica Médica. Fiquei muito feliz, pois venho mantendo uma certa coerência nesses 11 anos de formado. Minha visão sobre a medicina e a área de saúde em geral segue bem semelhante. Vejam aí...

             “Pois bem, estamos terminando a residência; para alguns, mais uma, para outros, a primeira. O que vem a nossa cabeça quando pensamos em residência? Plantão, claro. A gente emagrece, engorda, xinga a farmácia e dá um plantão; aprende, some dos eternos amigos da faculdade, faz novos grandes amigos, e faz prescrição; xinga enfermeiro, xinga chefe, estressa e dá mais um plantão.
            Hoje, damos mais um passo importante nas nossas vidas profissionais, tendo o privilégio de trabalhar em uma instituição tradicional e de respeito na comunidade médica de Belo Horizonte. O Hospital Felício Rocho nos recebeu com sua estrutura grandiosa e seu corpo clínico excelente, tornando-se uma referência certa e forte nos nossos currículos. Obviamente, o Hospital tem seus problemas; porém, esses são, facilmente, superados pelas suas virtudes. Certamente, todos  nós teremos orgulho em dizer que fizemos nossa residência ou especialização no Hospital Felício Rocho de Belo Horizonte.
            Nesse momento, a lembrança do início torna-se presente: os novos colegas, os preceptores, os enfermeiros, o Hospital, a farmácia, o refeitório e muitos outros. Porém, algo ficará gravado para sempre na memória de todos, como referência dessa fase tão feliz das nossas vidas: O BEEP !!!! Êta aparelhinho malacabado. O Beep, tão querido e estimado por nós, tem o incrível poder de transformar o humor das pessoas. Aquele barulhinho insuportável consegue tirar qualquer um do sério. Reza a lenda que o famoso Beep foi criado em meados de 1939 como técnica de tortura nazista, e ainda hoje é utilizado de maneira bastante eficaz. Ah, e a escolha do barulhinho menos pior... quem já pegou aquele Beep sabe do que estou falando. Pois então, muitos, aqui hoje, estão comemorando não a colação, e sim, o fim do Beep, ou o início de um menos pior. Que alívio, heim?
            Bom, Beep a parte, gostaria de fazer algumas breves considerações a respeito da medicina atual. Primeiro, uma medicina de muita informação e pouca formação, na qual vem ocorrendo uma banalização das coisas simples e comuns, que são tão importantes quanto as complexas. Por exemplo, educação, paciência, caligrafia, humildade e bom humor. Atualmente, um médico bem humorado, paciente, com letra legível e educado, ou seja, básico, é extremamente raro.
            Segundo, uma medicina de muita reclamação e pouca ação. Hoje em dia, o que mais estamos vendo é médico reclamando, seja do colega, seja da instituição em que trabalha, seja dos planos de saúde, seja dos familiares dos pacientes, seja do excesso de trabalho, seja dos enfermeiros, seja do seu time. Reclamar, hoje, tornou-se o principal hobby do médico. De que adianta xingar a má remuneração e se submeter, as vezes, a condições ridículas de trabalho? De que adianta tentar resolver sozinho, se sabemos que o trabalho em equipe é muito mais eficiente? De que adianta apenas criticar a instituição em que se trabalha e não fazer nada para melhora-la? O problema não é falta de tempo, mas sim, comodidade. Sempre foi muito mais fácil criticar que fazer. É necessário descruzar os braços e passar a agir para melhorar.
Terceiro, uma medicina de médicos muito frágeis e desunidos. A prepotência e o choque de egos faz com que os médicos se isolem cada vez mais, enfraquecendo a classe. O trabalho em equipe deve ser valorizado e aprimorado mais e mais em qualquer instituição. Muitas vezes, nós médicos nos julgamos mais capazes e até subestimamos o trabalho dos outros colegas, como enfermeiros e fisioterapeutas; porém, é preciso saber que eles são peças tão fundamentais como o próprio médico. É preciso equilibrar valores e respeitar igualmente desde o faxineiro até o chefe; só assim existirá harmonia e eficiência em uma equipe de trabalho. A limitação não é motivo para desvalorização. O único jeito de atingir objetivos é dividir tarefas, trabalhando junto, respeitando e ajudando cada pessoa a sua volta,  valorizando o sucesso do colega como engrandecimento do grupo, da instituição. Sabemos que os grandes médicos possuem grandes equipes. Ajudar hoje para ser ajudado amanhã.
Um outro aspecto que eu não poderia deixar de mencionar é o auto cuidado. Cuidamos muito bem do próximo e, constantemente, esquecemos de nós mesmos. Vamos trabalhar sim, mas vamos viver também! A vida não é e não pode ser só medicina. Mantenha os amigos da escola, da rua, da família; ao menos você terá outros assuntos, que não medicina, num bate papo informal. Vamos manter nossos hobbies, além das reclamações. Vamos praticar um esporte, ler, escutar uma boa música, ficar mais com a família, jogar conversa fora e namorar mais. A medicina exige muito e o médico precisa estar sempre inteiro para exercê-la da melhor maneira possível; senão, como um doente vai cuidar do outro?
Saibamos, também, que 10 dias de férias não são suficientes para desatualizar ninguém! Torna-se necessário desligar da medicina de vez em quando.
Saibamos que felicidade e bom humor são altamente contagiosos e que são, com comprovação científica, os únicos remédios ótimos para qualquer doença. E o melhor, sem efeitos colaterais!
Tá insatisfeito? Tudo bem, então vai fazer direito, engenharia, vai jogar futebol, sei lá!
Acordou de mau-humor? Tudo bem, mas a enfermeira, o paciente e o seu colega não têm nada a ver com isso. Dê bom dia aos outros, sorria mais.
Vamos praticar uma medicina de maneira saudável e feliz. Com certeza, teremos melhores resultados.
Humildes e eternos aprendizes, iniciamos uma nova etapa!
Obrigado Hospital Felício Rocho!
Adeus Beep!
Sejam todos muito felizes!
Obrigado!

Breno Figueiredo Gomes - Medicina Interna - Dezembro de 2002”

terça-feira, 15 de maio de 2012

Currículo Adicto

     O bom currículo pode abrir muitas portas, mas não as mantem abertas. O currículo é apenas um parâmetro de avaliação do profissional. Óbvio que as realizações profissionais prévias são muito importantes, isso é indiscutível; porém, currículo cheio não é sinônimo de boa formação. O que vem acontecendo nas faculdades é que me intriga... Uma compulsão coletiva por currículos abarrotados de “feitos” inúteis para a formação. Claro que é preciso avaliar, de alguma forma, a performance do aluno, mas acrescentar opções mais inteligentes e práticas poderia ser discutido.

      Saber a teoria é tão importante quanto a relação com o paciente. Na faculdade, avaliações de condutas deveriam ser mais frequentes, valorizadas e estimuladas, embora sejam intangíveis. Cabe ao professor equilibrar a formação técnica e a humana, ambas importantes. Nenhuma das duas se esgota nunca. A formação técnica é mais avaliada porque existem fatores tangíveis para mensurá-la, como presença, provas, arguições e trabalhos. A formação humana dificilmente é avaliada e trabalhada, formalmente, durante o curso. O aluno completamente descompensado emocionalmente e “bom de prova” entra, com facilidade, no mercado de trabalho.

     O profissional de saúde precisa aprender a lidar é com gente. Saber escutar, falar na hora certa, ajudar o próximo, reconhecer suas fraquezas, desenvolver a empatia, praticar a paciência e controlar a impulsividade e o imediatismo são bem mais importantes que uma avaliação, na minha opinião. O inverso também é verdadeiro. Conheço inúmeros profissionais excepcionais nas relações interpessoais, mas muito fracos tecnicamente. Esses também não se sustentam. O conhecimento é fundamental para uma prática segura e eficaz.

    A formação humana exige excelentes professores, maduros e experientes. Geralmente, atinge-se esse grau com o tempo. Infelizmente, o Brasil ainda não aprendeu a valorizar os seus professores, em nenhum grau de ensino, seja no maternal ou no doutorado. Formar, manter e valorizar o professor vem se tornando um trabalho cada dia mais difícil. A nossa educação é reflexo direto dos nossos pais, em primeiro lugar, e dos nossos professores. Sucatear a educação é banalizar o futuro.

     O caminho que já está sendo trilhado, pautado na formação técnica excessiva, nos levará, inexoravelmente, para uma sociedade fria, cara e infeliz. Não sentir desconforto com o desconforto próximo é preocupante. Não precisamos humanizar a medicina e sim, a educação das próximas gerações.

     Para finalizar, uma frase do professor Luiz Otávio Savassi Rocha, ilustríssimo patrono da minha turma: "Humanizar a medicina é igual vegetalizar a botânica!"