Quem sou eu

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Suspiro da Morte

     Todos aqueles que cuidam de pacientes graves já vivenciaram uma situação semelhante. Paciente grave, sem nenhuma perspectiva de cura, onde a medicina passa a exercer o seu mais nobre valor: o de confortar. Mesmo diante da impotência escancarada, o médico de verdade continua ali, ao lado do paciente e da família, até o derradeiro suspiro.

            Após todo o desengano, agônico e sem nenhuma resposta consciente, eis que de repente ocorre uma melhora significativa e inexplicada. Milagre? Cura? O que aconteceu? Aqueles mais vividos conhecem bem o suspiro da morte.

           O paciente terminal, extremamente grave, sem nenhuma explicação científica, arranja forças para melhorar sua condição clínica temporariamente. Quase sempre, antecedendo o desfecho fatal. Volta a conversar, interage com os familiares, alimenta-se um pouco melhor, aguarda a chegada de um ente querido e, literalmente, despede-se da família e dos amigos pouco antes de evoluir para o óbito.

         Jamais li nada a respeito, mas já vivenciei inúmeros casos. A impressão é que o paciente busca o último fôlego de energia para se despedir.

      Ontem assisti o filme “Os Descendentes”, concorrente ao Oscar, e achei muito interessante. A maneira com que a morte, um tema tão difícil, é abordada, me chamou a atenção. Suave, transparente e até gentil, nos faz pensar e repensar nos reais valores da vida. Recomendo.

         Não recrimino ou desfaço de nenhuma forma de se enxergar o mundo. Simplesmente noto a nossa medicina alopática um pouco seca demais. A imensa maioria dos colegas não valoriza o poder dos sentimentos, da atenção. Existem inúmeras condições inexplicáveis pela medicina tradicional. Não se deve podar as esperanças e as crenças das pessoas e nem duvidar da força de vontade do ser humano. Tenho convicção que são tão importantes, ou mais, que muitos dos nossos remédios.

            Como sempre, o equilíbrio é indispensável. Não acho que pneumonia se trata com reza. A fé, sem dúvida nenhuma, é importante. Não adianta prescrever o remédio certo se o paciente não confia. A receita vai para o lixo. O suspiro da morte não é regra; a presença do médico, ao lado do paciente e da família é.

7 comentários:

  1. Conheço bem essa melhora do paciente terminal nos ultimos momentos: sempre salva o Galo do rebaixamento!

    ResponderExcluir
  2. Muito bem. Me lembrei de um artigo que li e guardei, fala da morte como aprendizado. abraço, Felipe

    Veja os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão para morrer.
    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-arrependimentos-no-leito-de-morte-pela-enfermeira-ware

    ResponderExcluir
  3. Breno, como sempre, abordando assuntos muito pertinentes.
    Acho que esse é o caminho. Devemos resgatar a humanidade na medicina. A medicina não é medicina se desvinculada do ser e do sentir.
    É necessário um olhar mais abrangente.
    Abraços!!!

    ResponderExcluir
  4. "O suspiro da morte não é regra; a presença do médico, ao lado do paciente e da família é." Perfeito!

    ResponderExcluir
  5. Breno, devemos nos instrumentalizar cada vez mais com medidas proporcionais no contexto da terminalidade. Saber lidar com o luto dos familiares e amigos, com o luto do próprio paciente, aprender a comunicar más notícias, aplicar os princípios bioéticos da terminalidade (um capítulo específico da bioética), saber manejar bem um quadro de morte iminente, saber usar a morfina etc... Pode ser até meio macabro dizer isso, mas é maravilhoso assistir a um processo de morte bem conduzido... com bom controle de sintomas e conforto do binômio paciente e familia. E isso não deve se restringir às situações da oncologia mas também nos casos de cuidados paliativos não oncológico. Parabéns pela reflexão tão oportuna. VAmos nos instrumentalizar melhor para isso. Cuidar da terminalidade ensina demais para todo mundo.... Aproveito e faço marketing do departamento científico da AMMG (Sociedade de Tanatologia de Minas Gerais - www.sotamig.com.br) abs Ana Paula Abranches

    ResponderExcluir
  6. A compaixão é um sentimento e também uma virtude. A compaixão é a simpatia na dor ou na tristeza, em outras palavras é participar do sentimento do outro. Compartilhar o sentimento do outro não é aprová-lo nem apoiar suas razões para sofrer; é recusar-se a considerar um sofrimento, qualquer que seja ele, como um fato indiferente, e um ser vivo, qualquer que seja ele, como coisa. A compaixão não é um dever mas pode ser cultivada.
    O fato dela ser sentimento e virtude, tristeza e poder, explica o privilégio que Rousseau e Schopenhauer, com razão ou sem nela viram: ela é o que permite passar de um ao outro, da ordem afetiva à ordem ética, do que sentimos ao que queremos, do que somos ao que devemos ser. Dir-se-á que o amor realiza essa passagem. Sem dúvida. Mas o amor não está a nosso alcance, a compaixão sim.

    ResponderExcluir