Quem sou eu

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terça-feira, 27 de maio de 2014

Mudança

Mudar a direção não implica mudar o destino
O que norteia é a índole, os ideais e a seriedade
Caminhos diferentes podem levar ao mesmo objetivo
O que motiva é o novo

Virar o leme para navegar em outras águas
Certamente mais agitadas e instigantes
O diferente não me assusta
Antes arrepender do feito do que nada feito

Não vou sozinho
Sonhar junto é fazer a realidade
Trabalho em equipe afronta a matemática
Onde dividir sempre será multiplicar

Animado com as possibilidades
Ciente da responsabilidade
Sucesso? Consequência, jamais objetivo
O caminho é que me encanta

Construir é inebriante
Reiniciar é desafiante
Abrir mão é incerteza
Divertir com o frio na barriga é certeza

Aposto minhas fichas no novo
Minha zona de conforto é muito desconfortável
Parece sapato apertado
Veste bem, impressiona os outros, mas aperta meu calo

Deixo meu berço para alçar vôos maiores
Levo minha formação e a certeza da multiplicação do ideal
Deixo amigos, histórias, mestres e aprendizes
Levo carinho, respeito e a certeza do dever cumprido



Dia 1o. de Junho inicio minhas atividades no Hospital Mater Dei. 
Ao Hospital Felício Rocho, minha eterna gratidão.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Dias Melhores...

Dia 19 de novembro de 2013, o ano do Galo, vivi uma das experiências mais bacanas e emocionantes da minha vida: virei papai! Maria Luisa veio ao mundo de parto normal e chegou saudável e linda como a mamãe (graças a Deus). A postagem de hoje tinha tudo para ser sobre essa experiência mágica que muda radicalmente nossas vidas, mas, ao invés disso, vou discutir sobre a medicina atual e os seus caminhos preocupantes.

Ela havia optado pelo parto normal e, felizmente, optou pelo médico certo. Todo o pré natal foi realizado com ele. Todas as dúvidas foram esclarecidas por ele. Toda a insegurança foi se dissolvendo com ele. Todo o processo de trabalho de parto foi conduzido por ele (e não foram poucas horas não – do período de latência até o nascimento foram 27 horas!). Todo o acompanhamento pós-parto foi feito por ele. Em tempos de uma medicina mercantilizada e nivelada pela baixíssima qualidade, ainda existem médicos verdadeiros. O verdadeiro "Dono" do paciente ainda existe. Dr. Henrique faz parte dessa espécie em extinção.

No início do trabalho de parto, ela estava uma "pilha de nervos". Dor, insegurança, incerteza e medo estavam no limite. Marinheiros de primeira viagem, somos absolutamente leigos na arte de domar nossos sentimentos. Eis que surgiu o "domador". A chegada do Dr. Henrique foi uma dose cavalar de tranquilizante para ela e para mim. Ele estava lá e assim ficou até o final. Transbordando confiança, simpatia, disponibilidade, respeito e profissionalismo, o trabalho de parto tornou-se um momento prazeroso.

Desde o início, a opção sempre foi pelo parto mais seguro, independente da via. Óbvio que a indicação precisa definiria a via do parto. Atualmente, isso definitivamente não corresponde a nossa realidade. Correndo tudo bem, com técnica e, principalmente, tempo, a indicação de cesariana é exceção; porém, tornou-se a regra no nosso meio.

O mercado de saúde vem caminhando para o lado errado. Infelizmente, enquadrou a medicina no paradigma capitalista: "tempo é dinheiro". Em saúde, isso é um perigo. Remunerar por produção, sem valorizar a qualidade, nivela nossa profissão por baixo. Todos sabem que medicina não combina com pressa.

Saúde não dá dinheiro. Uma boa consulta clínica e a prevenção não remuneram bem nem o profissional e nem a instituição. As vias de parto são os exemplos clássicos da mercantilização sobrepondo-se as evidências (leia mais na postagem "Vias de Parto"). As melhores práticas não são iguais a lucro tangível. Nada mais saudável do que a gravidez; assim, a gestação é desvalorizada pelo "mercado burro" da saúde. Esse é o motivo do fechamento de inúmeras maternidades. No balanço da saúde, remuneram-se procedimentos e exames altamente tecnológicos. A atenção passou a ser preterida. A medicina despersonalizada, de volume e fraca tecnicamente, tomou conta. Perdemos nossos clientes, nossos fiéis escudeiros em épocas não tão distantes. Hoje estamos sós, fracos e, literalmente, esculachados pelo governo e operadoras.

Outro aspecto intrigante e inexplicável é o fato de um médico com vários anos de experiência e um recém formado serem iguais frente as fontes pagadoras. A remuneração é a mesma. O médico mais experiente se desgasta por não ter sua evolução profissional reconhecida. Uma pequena parte abandona os convênios, mas a maioria acaba entrando no jogo. A baixa qualidade tornou-se uma constante. Não precisamos evocar os cubanos (apesar de ser, terminantemente, contra este programa), nossa medicina também está fraca. Felizmente, temos as gratas exceções que precisam ser valorizadas, nem que seja com um humilde texto de agradecimento.

Após a dilatação adequada do colo do útero, foi realizada a anestesia. A partir daí, tudo correu com extrema tranquilidade. Sentado na cadeira ao lado da cama, vi a cena que não me furtei a documentar e compartilho com vocês abaixo: o trabalho de parto da minha esposa. O Dr. Henrique fazendo a dinâmica uterina com a Camila, anestesiada, em pé e conversando com as amigas via celular. Este é o trabalho de parto na era da tecnologia, porém, sem perder o poder do toque e do afeto do médico.


Malu nasceu as 22:17. Além do sentimento inigualável da paternidade, senti orgulho da minha profissão e esperança em dias melhores. A medicina exercida da forma mais pura, com atenção incondicional, tempo e temperada adequadamente pela tecnologia jamais vai perder o seu espaço. Muito obrigado Dr. Henrique! Você realmente fez a maior diferença e estará sempre nas nossas melhores lembranças.


terça-feira, 31 de julho de 2012

Acreditação Hospitalar: É Possível Acreditar?


No setor de saúde, assim como nos demais segmentos econômicos, a busca pela qualidade vem se tornando um diferencial importante entre as instituições. A acreditação hospitalar é uma ferramenta utilizada para avaliar a segurança e a qualidade dos serviços prestados em saúde. A ONA (Organização Nacional de Acreditação) é a principal instituição acreditadora no Brasil. Internacionalmente, a certificação mais conhecida e difundida é a da Joint Commission International.

Todas as acreditações visam uma padronização dos processos, embasada em um ambiente seguro para pacientes e colaboradores da instituição de saúde. A busca pela qualidade, inclusive, vem sendo remunerada pelas fontes pagadoras. Instituições comprovadamente qualificadas pelas acreditações recebem um repasse maior pelos serviços prestados. Nada mais justo. Maior a qualidade, maior o repasse.

O Brasil vem passando por uma onda de acreditações e isso é ótimo para o cliente. Melhorar a segurança tornou-se vital no setor. As instituições que possuem tais certificações certamente são destaque no mercado.

Vivi um processo recente de acreditação dentro do hospital em que trabalho. Nos últimos 8 anos, por exemplo, as melhorias são evidentes e as acreditações são as principais responsáveis por essa mudança. As acreditações vieram para ficar, mas ainda precisam se desenvolver muito para conseguir mudar, efetivamente, a cultura de qualidade das instituições de saúde.

O maior obstáculo encontrado pelos gestores é o envolvimento dos médicos neste processo. Existem poucos que compreendem a importância e que colaboram. A maioria desconhece e discrimina. Por que será? Parte da resposta é muito simples. A instituição que torna-se acreditada passa a ser melhor remunerada, mas o médico, peça fundamental do processo, não. O grande questionamento desses profissionais é o seguinte: “Além de mais trabalho, o que eu vou ganhar com isso?”. Claro que a melhoria da instituição promove ganhos indiretos; porém, a satisfação do profissional é sustentada por um tripé: reconhecimento profissional, ambiente de trabalho e remuneração. O equilíbrio promove a satisfação e consequente retenção dos bons profissionais. Qualquer um dos três, isolados, não satisfazem o profissional por muito tempo.

É chegada a hora de toda instituição de saúde profissionalizar a participação dos médicos nas ações de qualidade, investir na dedicação exclusiva do maior número possível de profissionais, remunerar, cobrar e valorizar colaboradores dispostos e aptos a ajudar. Nas melhores instituições de saúde do mundo, o profissional é remunerado pela assistência, pelo ensino e pela pesquisa. O perfil de cada um define sua área de atuação dentro da instituição ao longo do tempo. Qualidade em saúde é pesquisa pura. Identificar o problema, criar soluções, avaliar o resultado, otimizar o processo e multiplicá-lo são as essências da inovação. Inovação é o melhor investimento para a perenidade da instituição e deve ser estimulada sempre. Inovar é crescer.

A primeira etapa, de conhecimento desse novo universo das padronizações e de qualidade, está cumprida. A segunda etapa, de aperfeiçoamento das técnicas de gestão em saúde, chegou. Não podemos deixar de surfar essa onda. A instituição que conseguir reter seus médicos, de verdade, lançando mão de projetos profissionais irá se sobressair. Isso é fato.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Chip no Jaleco: Ofensa ou Pausa para Reflexão?


Na última semana, muito se comentou sobre a atitude de gestores do Rio de Janeiro, que resolveram colocar chips nos jalecos dos profissionais de saúde na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Mesquita, na Baixada Fluminense. A medida, segundo a empresa responsável pela gestão da unidade, visa controlar a frequência de seus 150 servidores e evitar o desvio de materiais.

Acredito que essa medida merece uma discussão mais sensata, ponderada e isenta de conflitos de interesse.

A colocação de chip nos jalecos dos profissionais que cumprem suas funções e carga horária adequadamente não é motivo de brigas ou discussões. O profissional é contratado para trabalhar com a carga horária definida e espera-se que ele cumpra tal horário. Não entendo, então, qual o problema em monitorar a frequência.

“Monitorar com chip é coisa de supermercado ou para animais.” Argumento falho que demonstra total falta de conhecimento. O chip não pode e nem deve ser rotulado dessa forma, pois possui ainda uma infinidade de utilidades, sendo o monitoramento da frequência a mais simples delas.  O uso dessa tecnologia, ainda cara, apenas para monitorar frequência é de fato um desperdício, jamais uma ofensa.

As mais modernas técnicas de gestão vêm lançando mão do chip para assegurar, principalmente, a segurança do paciente. O RFID (do inglês Identificação por Rádio Frequência) ainda engatinha no setor de saúde. Vocês sabiam que tecnologias semelhantes já são utilizados para lembrar o profissional de lavar as mãos antes de examinar o paciente, por exemplo? Sabiam que estudar o deslocamento dos profissionais e dos pacientes, dentro de uma unidade de saúde, pode otimizar os fluxos internos com ganho significativo de dinheiro, tempo e segurança? O controle de estoque já é uma questão básica e comum. A segurança na administração de medicamentos também vai aumentar muito com essa nova tecnologia.

A polêmica em relação ao uso do chip ocorre, na verdade, por evidenciar outro problema. Utilizar carga horária para reivindicar melhores salários é muito comum em saúde. A carga horária está realmente sendo cumprida por todos? Tenho certeza que a maioria cumpre, porém, existem inúmeros profissionais que não o fazem. Se vou pagar por um serviço, o mínimo que preciso exigir é a presença do profissional, ou não?

O que não pode acontecer, na minha opinião, por total falta de coerência, é exigir melhores salários por uma carga horária “X” e querer trabalhar 3/4 de “X”. Sabemos que isso acontece. Atitudes compensatórias provenientes da elasticidade moral devem ser abolidas. Um erro (baixos salários ou más condições) não se corrige com outro (serviço mal feito ou incompleto). Quem paga quer qualidade, quem aceita realizar o serviço, ciente da remuneração, deve procurar fazê-lo de maneira bem feita. Acredito nisso. Não estão pagando bem ou não oferecem as mínimas condições para se trabalhar com tranquilidade? Reúna forças para melhorar a situação ou procure outro serviço. Simples assim.

Finalizando, defendo outro argumento contra a utilização dessa tecnologia no setor público. A saúde está subfinanciada e utilizar o que há de mais moderno e caro para monitorar frequência é, no mínimo, um desperdício absurdo. Colocar uma pessoa na porta da instituição, monitorando a presença e a permanência, certamente ficaria bem mais barato e tão resolutivo quanto. RFID sem um desfibrilador que funcione, por exemplo, também é uma vergonha. Questão apenas de definir as reais prioridades.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Teoria do Dono


“Aqui tem Dono!” é uma expressão espetacular utilizada pela Ricardo Eletro. O fato de alguma coisa possuir Dono, intrinsicamente sugere que ela está sendo vigiada e bem cuidada. Ninguém deixa seus pertences largados a esmo. “O olho do Dono é que engorda o gado!”: outra expressão fortíssima e carregada de verdade também. “Quer algo bem feito? Pega e faz!”. Pois bem, isto é gestão: fazer as coisas acontecerem.

Na saúde, ainda estamos engatinhando e precisamos evoluir bastante. A maioria dos prestadores (entenda-se médicos) é avessa a gestão. Inocência, talvez, seja a palavra mais sutil para definir essa posição dos médicos. Costumo dizer que quem não sabe administrar será administrado, impreterivelmente. Infelizmente, a maioria das pessoas desconhece a essência das técnicas de gestão.

“Balance Scorecard”, “5W2H”, “SWOT”, “5 Forças”, “Matriz BCG”, “PDCA”, “Lean” e “6 Sigma” são algumas das técnicas utilizadas em gestão e que estão invadindo o setor de saúde. Independente da técnica utilizada, a essência é uma só: projetos precisam de Donos. Todas as técnicas se mostraram eficazes quando a equipe entende os seus propósitos. Quem é o responsável por fazer a equipe entender? O Dono, claro!

Projetos sem Donos são natimortos. Esquecidos, enfraquecem e morrem, mesmo quando a ideia mostra-se fantástica. As técnicas são excelentes para sistematizar os processos; porém, quem resolve os problemas são as pessoas. Não existe técnica perfeita, todas possuem suas limitações.

Vale lembrar que o Dono não toma as decisões sozinho, não faz tudo sozinho e não está, jamais, sozinho. O Dono moderno trabalha junto com sua equipe, escutando-a e catalisando condições para o melhor rendimento de cada membro. O verdadeiro Dono sabe que, em gestão, dividir é multiplicar.

Não defendo uma técnica específica, apesar de possuir minhas preferidas. Defendo atitudes diante do problema. O querer resolver o problema, seja do projeto, seja do cliente, é o combustível necessário para as técnicas funcionarem. O colaborador que quer resolver, resolve. Este precisa ser valorizado dentro das instituições. Mesmo não resolvendo o problema, apenas ajudar a resolver já é suficiente.

Um outro exemplo típico é o paciente sem Dono (médico). Insatisfeito com o sistema, esse paciente continua alimentando-o por falta de alternativa; visita inúmeros médicos, mas não possui nenhum que o assuma de verdade. Caro para o sistema, continua frequentando o pronto-socorro, peregrinando pelos Hospitais e realizando inúmeros exames desnecessários. As fontes pagadoras, felizmente, já começam a perceber que as medidas preventivas e o “Dono” podem ajudar a economizar bastante na conta do final do mês. Defendo a Teoria do Dono! 

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Gato Preto

     A valorização excessiva de títulos, diplomas e da teoria minimiza a importância da prática em várias profissões. Na saúde (e talvez em todas as profissões), estamos formando profissionais muito preocupados com o currículo e que colocam a atenção direta ao paciente em segundo plano. Fazer uma prova tornou-se mais  importante que dar atenção ao paciente. A técnica se sobrepõe ao humano e a satisfação do cliente, indispensável para a perenidade do serviço, torna-se subvalorizada. A satisfação está diretamente ligada a atenção prestada. Técnica perfeita sem atenção não satisfaz, independente do resultado final. Como ensinar com qualidade e efetividade na área de saúde? Quais indicadores utilizar?

     As novas modalidades de aprendizado em saúde são importantíssimas e vêm se desenvolvendo a cada dia. A tecnologia pode e deve ser explorada ao máximo. O "e-learning" (aprendizado via internet) já é uma realidade com benefícios indiscutíveis, assim como a utilização da tecnologia virtual. As simulações realísticas (desenvolvidas com equipes multidisciplinares, robôs, manequins e até atores profissionais) vêm se multiplicando com um potencial enorme para minimizar o abismo entre teoria e prática, porém, ainda são para poucos. O contato direto com o paciente sob supervisão direta de profissionais experientes continua sendo a modalidade mais efetiva. A residência médica, indiscutivelmente, é um berçário de bons profissionais. O equilíbrio entre a tecnologia e o afeto deve ser buscada incessantemente.

     Não conseguimos mensurar o aprendizado das relações interpessoais, da disponibilidade e do verdadeiro dom de cuidar. Estes são pontos cruciais na área de saúde, mas são intangíveis, logo, torna-se praticamente impossível "dar uma nota" para esses quesitos. A intangibilidade prejudica as mensurações. A realidade exposta por inúmeros indicadores inúteis é cada vez mais comum. O número de atendimentos, por exemplo, utilizado amplamente, definitivamente não indica a qualidade do serviço. O gestor que se gaba de atender muitos pacientes no seu pronto-socorro certamente está dando um tiro no próprio pé. Na prestação de serviços, a quantidade é inimiga mortal da qualidade. 

     Talvez seja por isso que temos tanta dificuldade em achar indicadores realmente úteis na área de saúde. Na maioria das vezes, eles avaliam a qualidade dos processos e não dos serviços. As peculiaridades de cada paciente e das inúmeras variáveis durante um mesmo tipo de tratamento remetem a Teoria do Caos, onde qualquer variável, por menor que seja, interfere no resultado final. As comparações são sempre falíveis, assim como a maioria dos indicadores, muitas vezes manipulados estatisticamente para não prejudicar acreditações, nas quais a maioria dos colaboradores da instituição não acreditam.

     O caminho, já sendo trilhado pelas grandes instituições de saúde (na minha opinião, sem volta), é otimizar todos os processos não relacionados ao contato direto com o paciente. Processos são mais tangíveis, mensuráveis e comparáveis que a assistência. Enquanto isso, quebremos a cabeça para inventar indicadores relacionados a assistência. Avaliações realizadas pelos próprios clientes, com o desenvolvimento de ferramentas "pós-venda", talvez seja um caminho. Certamente complicado e incerto também.

     Concluindo, a mensuração da qualidade da prestação e do ensino em serviços de saúde é incerta, complexa e desafiadora. Inspirado no Prof. Savassi, procurar indicadores ideais em medicina é a mesma coisa que procurar um gato preto, em um quarto escuro e com os olhos vendados. Ah! Lembrando que o gato não está lá.

terça-feira, 27 de março de 2012

Escutando com os Olhos

“Escuta e serás sábio.
O começo da sabedoria é o silêncio.”
Pitágoras

        Diariamente estaciono meu carro perto do hospital e vou caminhando. Próximo ao Felício Rocho, em Belo Horizonte, existe uma escola muito especial, o Instituto São Rafael. Os transeuntes da Av. do Contorno com Av. Augusto de Lima, frequentemente encontram grupos de jovens com deficiência auditiva conversando em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais).

    As conversas são recheadas de gestos, expressões faciais, gargalhadas e uma característica principal, a atenção redobrada com o próximo. Eles, literalmente, escutam com os olhos. Aprendem, desde cedo, a observar, atentamente, seu interlocutor. A intensidade do olhar é impressionante. A percepção da linguagem corporal é, certamente, muito mais aguçada. Sem sons, a atenção precisa ser triplicada na comunicação.

      Ao trazer esta experiência para o nosso cotidiano, vejo que deveríamos aprender muito com os deficientes auditivos. A lição principal: escutar (observar) mais que falar. Esta, sem dúvida alguma, é a principal característica dos mais sábios. Atualmente, conversa-se sem olhar no olho. O comum é ter milhares de “amigos” virtuais e nenhum real. Falta atenção com o próximo e sobra egocentrismo. Olhar de cima tornou-se uma praga nas relações humanas modernas. Informação fácil engordando o ego e emagrecendo o respeito com o próximo.

     Já cansei de dizer neste blog que a comunicação é o calcanhar de Aquiles de qualquer instituição de saúde. Repetindo a frase do saudoso Dr. Júlio Arantes Sanderson de Queiróz, de Aiuruoca-MG: “Repito por falta de imaginação e por convicção”. Precisamos nos comunicar melhor. Conversa virtual é excelente para documentar, mas péssima para resolver as coisas. Mandar um e-mail evidenciando um problema e “lavar as mãos” virou mania. Poucos assumem o problema. Assumir, neste caso, é resolver ou, no mínimo, tentar resolver.

      Tenho certeza que uma conversa “ao vivo” de 3 minutos resolve mais que 30 e-mails. Certa vez, nos deparamos com um problema de faturamento que se arrastava por vários meses. A solução encontrada? Apresentar as duas responsáveis que só se conheciam por e-mail, apesar de trabalharem em salas muito próximas. Em poucos minutos resolveram o problema. A conversa escrita, por mais detalhada e cuidadosa que seja, jamais substituirá a conversa olho-a-olho. Vide as grandes negociações que são seladas sempre com o encontro das duas partes.

       Das conversas silenciosas dos deficientes auditivos tirei duas lições: para aprender não é necessário falar e para se comunicar, efetivamente, é preciso ver.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Banho de Empatia


     “Estava morrendo de frio, o ar condicionado ligado e eu ali deitado em uma cama do CTI, só com uma fralda e um cobertor esgarçado. Havia operado de "nó na tripa" há dois dias. Minha barriga quase explodiu. Ficara uma semana sem obrar e cheguei no hospital quase desfalecendo. O médico nem me olhou direito e já me levou direto para o bloco de operação. Disse que eu tinha septicemia e que se não me operasse eu morreria. Logo eu, que nunca tinha ido no médico. Graças a Deus e ao Dr. Cirurgião, me salvei. Após a cirurgia lá estava eu no CTI.

     Já estava acordado e lúcido, mas não me deixaram ir para a enfermaria por causa de uma tal de acidose. Os médicos ainda precisavam me dar muito soro e acharam mais seguro me manter no CTI. Meu xixi, esmirrado e amarelão, saía por uma sonda que ardia demais. Dor até que eu não estava sentindo muito. O corte da cirurgia já estava bem sequinho.

     De repente, entra a enfermeira... "Bom dia Sr. Xisto! Está na hora do banho!" Não sei de onde ela tirava aquela empolgação. Tubo na goela, sonda, dor, frio, barulho, nada disso me dá tanta agonia quanto a lembrança do tal banho de leito. Como não podia sair da cama, as enfermeiras me davam o banho lá mesmo. Quem já passou por essa desgraça sabe bem do que estou falando. Os que nunca tomaram o "banho de gato" do hospital, não queiram. Sem dúvida, a pior experiência que já passei. Aos 83 anos não pensei que tivesse que passar por aquilo. Tinha até escapado do famoso exame do dedão, mas daquele banho desmoralizante não teve jeito.

     Primeiro tiravam minha roupa sem cerimônia nenhuma. Lá estava eu, pelado, com frio e completamente impotente diante das enfermeiras. Ainda mais eu, que só tinha ficado pelado na frente da minha esposa e, mesmo assim, na meia luz. Apesar da água esquentada, o frio era terrível. Elas conversavam sobre a novela, os filhos e até das paqueras enquanto lavavam minha poupança. Utilizavam uma compressa para limpar tudo, literalmente. Ali eu percebi o quão frágil eu era. Após o término eu já estava sofrendo com o possível banho no dia seguinte. Tomar um banho direito e sozinho era o que eu mais queria durante minha estadia no CTI. Tenho apenas um conselho para vocês, profissionais de saúde: nunca se esqueçam que ali existe um ser humano que pensa, morrendo de medo de morrer, ansioso, frágil e que sofre assim como você.”

     O hospital é um local de trabalho como qualquer outro. A criação de um bom ambiente entre os profissionais vale também para as instituições de saúde. Trabalhamos com pessoas frágeis em momentos, muitas vezes, delicados. Muitas vezes esquecemos que estamos lidando com pessoas. Talvez para aliviarmos a tensão natural do ambiente hospitalar, brincamos uns com os outros, falamos alto e esquecemos que o nosso cliente está logo ali e, geralmente, muito sensível. Comer após ver uma ferida horrorosa, achar uma escara bonita, acostumar com os cheiros, tudo passa a ser normal.

     Precisamos nos policiar dentro dos hospitais constantemente. Isso é função de todos os colaboradores juntos. O bom humor é muito bem vindo, a falta de empatia não. Colocar-se na situação do paciente ou dos familiares e identificar seus sentimentos caracterizam a empatia. Empatia é a característica mais importante de qualquer prestador de serviço. O melhor jeito de aprender é virar paciente. Pergunte para algum colega que precisou se internar um dia. Treine a empatia diariamente, ou então, tome um banho de leito! 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Já Montou sua Equipe?

         Acabei a faculdade, inteiramente cru, e comecei a especialização em clínica médica no dia primeiro de janeiro de 2001. Sabia que seria um período de intenso aprendizado. Tive muita sorte. Dentre as muitas coisas que aprendi na especialização, a que mais me surpreendeu foi: o verdadeiro trabalho em equipe. Além de excelentes preceptores, o grupo era muito unido e forte. Felizmente, ao final da minha especialização fui convidado para entrar para a equipe de Medicina Interna do hospital. Estava realizado!

            Talvez a falta de trabalho em equipe mais maciço na nossa classe explique parte desta falta de motivação. A maioria trabalha só. Quem opta por trabalhar sozinho, trabalha mais, estressa mais (não divide responsabilidades) e, certamente, ganha menos!

           Montar uma equipe demanda muita disposição, paciência, disciplina, tempo e sorte. Toda equipe enfrenta momentos ruins e é aí que se afirmam. A divisão de tarefas precisa ser uma constante. Equipe não nasce pronta, se constrói ao longo do tempo. Uma boa equipe precisa da experiência e vivência dos mais velhos e da empolgação e inocência da juventude. Esta mescla é fundamental.

            Outro ponto delicado que necessita de uma transparência enorme é o dinheiro. A divisão financeira deve ser clara e tendendo a equiparação em poucos anos. Exploração é incompatível com com equipe.

            Estamos vivendo um grande crescimento nos empreendimentos hospitalares no Brasil, em Belo Horizonte não é diferente. Expansões e criações de novos serviços estão a mil por hora. Como já dizia o Dr. Aloísio Nascimento, grande clínico em Sete Lagoas, "construir uma casa é fácil, difícil é construir um lar." Vários hospitais com infraestrutura impecável estão sofrendo com a carência de verdadeiras equipes. Agrupar profissionais não é montar equipe. A boa equipe precisa de um líder, uma referência. Uma liderança forte, que dê o exemplo, correta, democrática e organizada. Explorar o potencial máximo (e só isso) de cada um em prol do grupo. Um cresce puxando o outro. O apoio da alta direção é vital.

            A formação de uma equipe passa pela definição do seu foco principal. Qualquer novo membro, obrigatoriamente, deve conhecer e possuir a essência do grupo. Pensando nisso, a melhor forma de criar, expandir e perpetuar a sua equipe é criando-a. Na área de saúde, torna-se indispensável a residência/especialização. Instituições que enxergam a residência/especialização como mão de obra barata, certamente terão dificuldades para permanecerem competitivas no mercado.

            Os míopes em gestão não dividem o bolo por medo de perder a metade dele. Inocentes, serão engolidos pela concorrência ou pelo tempo. Agregar um bom profissional a sua equipe é sempre potencializar o seu poder. Lembre-se que o seu maior concorrente pode se tornar o seu melhor sócio.

            Desde o início, em 1976, sempre valorizamos a formação dos nossos especializandos e residentes. Na nossa equipe, por exemplo, somos 12, destes, 11 formados por nós mesmos! O único que não fez clínica conosco já está na equipe há 15 anos!

            O trabalho em equipe permite uma folga realmente despreocupada. Você se ausenta mas sua equipe não. Isto é qualidade de vida. Os clientes estarão sempre assistidos e o melhor, com o mesmo padrão de atendimento. Qualquer profissional descansado rende muito mais. Caso você não ligue para férias e seja autônomo, aí sim, trabalhe sozinho. Ah, mas não reclame!

            Com o passar dos anos, os membros da equipe passam a uniformizar as condutas naturalmente. Criam-se filtros naturais de segurança. Quando um não enxerga, o outro vê e a chance de erro minimiza. O paciente sente-se acolhido e satisfeito. Isto é a essência da qualidade.

            NOTA AOS GESTORES: Antes de investir em máquinas é preciso investir em equipes verdadeiras. No início, gasta-se tempo e dinheiro, isto é fato. A escolha do líder é fundamental. Os frutos serão colhidos com o tempo. Grandes empresas possuem grandes equipes. A parceria pelos resultados deve ser superior a competição e inveja individual ou de um certo grupo.

            Gostaria de homenagear meus dois padrinhos e mestres: Dr. José Olinto Pimenta de Figueiredo e Dr. Renato Anderson Neves Pinto Silva. Eles abriram as portas da Medicina Interna do Hospital Felício Rocho para mim e me ensinam, diariamente, o verdadeiro sentido da palavra equipe. A eles, devo a maior parte do que sou profissionalmente. Muito feliz, este ano começo meu R12 em clínica médica na equipe de Medicina Interna do Hospital Felício Rocho!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Gestão em Saúde: Amadorismo Angustiante

         Acabou a era do amadorismo em saúde. As instituições que não enxergarem ou que fizerem vista grossa para esta realidade estarão fadadas ao fracasso. Gestão está na moda e receitas de bolo são vendidas a um custo altíssimo. Acreditações, protocolos, indicadores e photoshop (leia aqui a excelente colocação do colega Guilherme Brauner Barcelos do Rio Grande do Sul) tornaram-se comuns. A essência e o core-business individual de cada instituição se perdem nesta falta de identidade institucional. Consultorias são importantes para se promover a arrancada, assim como as acreditações, entretanto, para crescer, a instituição precisa caminhar com as próprias pernas. Chegou a hora de fazer gestão de verdade!

         Relações profissionais de profundo amadorismo e frágeis em instituições altamente complexas. Não existe sincronia de interesses. Objetivos são de curtíssimo prazo e sem uma linha de continuidade. Os erros se repetem pela total falta de organização e comando linear. Interesses pessoais, ou de um grupo, se sobrepõem aos institucionais. A política, no final, justifica tudo. O comodismo e a recorrente frase: aqui sempre foi assim são características comuns. O crescimento alheio incomoda ao invés de orgulhar e agregar. As preocupações com os ganhos do próximo impedem o crescimento de alguns que, certamente, fracassarão no longo prazo.

            Em meio a esta batalha, eis que encontramos o pobre gestor em saúde (não me refiro aos diretores). As idéias são muitas, a autonomia minguada, o trabalho sempre dobrado, o reconhecimento  minimizado, a rotatividade de técnico de futebol brasileiro e o tesão quase sempre apagado pela falta de objetivos claros e de visão dos diretores da instituição.

            Dentre os gestores temos os próprios médicos, os enfermeiros e os não relacionados a área de saúde. Não me atrevo a dizer qual seria o melhor perfil, mas uma mistura de gestor profissional, não relacionado a saúde, com médico ou enfermeiro, assim como na Mayo Clinic, por exemplo, parece ser o mais sensato. Algumas instituições brasileiras felizmente já estão enxergando este caminho. Diferentes visões com um mesmo objetivo já são uma realidade, rara, mas existente no nosso meio.

           O enfermeiro, geralmente, é funcionário da instituição, logo, teoricamente, joga junto com os gestores, quando não o são. Não acho que seja a melhor situação, de maneira nenhuma, como já me posicionei na postagem: Cadê a Enfermeira?. Acho que a maioria dos enfermeiros sofre com esse acúmulo de funções burocráticas que tornaram-se inerentes a eles, por falta de opção e por necessidade imposta. Hoje, não existe a distinção entre enfermeiro e gestor, o que é, na minha opinião, um "erro crasso". Existem gestores excepcionais que são enfermeiros, não gostam (e isso é opção pessoal) da assistência direta ao paciente. Eles são fundamentais para a instituição. Definindo a posição não existe problema. O que é inadmissível é um enfermeiro assistencial ser cobrado apenas pela gestão e não pela qualidade da assistência em si e, o pior, sem receber nada mais por isso. Isto é uma rotina absurda no nosso meio, uma completa indefinição de valores.

        Situação igualmente aflitiva ocorre com vários médicos gestores. Na teoria, uma combinação perfeita por conhecer as duas posições. Infelizmente, uma parece apagar a visão da outra. Antes, critica o sistema,  mas, após assumir um cargo relacionado a gestão, acaba mudando seu ponto de vista. A falta de preparo e o desafio assumido apenas pela confiança, e não pela competência, fragiliza o gestor médico na maioria das vezes.

            Bakunin, anarquista e teórico político russo do século XIX, dizia que aquele que assume uma posição política superior, além de mudar de status, também muda o ponto de vista. Passa a enxergar a situação de um novo ângulo, muito diferente das suas convicções "proletárias". Poucos são os mal intencionados, a maioria, são meramente humanos.

          Sobra o coitado do gestor não relacionado a área da saúde pelejando com os médicos. Eles não ajudam, não estão preocupados com as melhorias, não coletam dados…” Por que? O médico não está ganhando nada com isso. O hospital acreditado, por exemplo, passa a ter um ganho maior nos repasses, enquanto os médicos... Poucos são os hospitais que ajudam os médicos nas suas reivindicações diante dos planos de saúde, por exemplo. Sendo assim, os médicos não se empenham em nada para melhorar a instituição, pois não conseguem enxergar, ou não lhe mostram o real retorno.

          Gestores brilhantes conseguem equilibrar os pontos de vista, da sala da diretoria ao "chão da fábrica". Gestores acima da média conseguem selecionar pessoas diferenciadas que enxergam o que eles não vêem. Gestores comuns delegam funções a pessoas comuns. Gestores medíocres não enxergam o foco principal da instituição e conhecem apenas as fórmulas de soma e subtração.